O encontro do Papa Francisco com os povos indígenas no Peru

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Após sua viagem de quatro dias ao Chile, o Papa Francisco desembarcou no Peru. No País, o Pontífice participou de inúmeros compromissos, entre os dias 18 e 21 de janeiro, e um dos mais significativos deles foi o encontrou com os povos indígenas na cidade de Puerto Maldonado, na sexta-feira (19). Na ocasião, Francisco foi recepcionado por cerca de quatro mil representantes de nações indígenas, no estádio Madre de Dios.

O Santo Padre ouviu o testemunho e o clamor do povos Harakbut e Awajún, que representaram a luta, a resistência, o saber e a cultura de todos os povos indígenas. No encontro, o bispo de Puerto Maldonado, dom David Martínez de Aguirre Guinea, O.P, em sua saudação de acolhida agradeceu a convocação para o Sínodo dos Bispos para a Amazônia, que será em outubro de 2019, e ressaltou a presença missionária da Igreja na Amazônia junto aos povos indígenas. Segundo o bispo, entre acertos e equívocos foi possível construir um caminho de respeito e protagonismo dos povos originários.

Yésica Patiachi com Héctor Sueyo, do povo Harakbut, denunciaram o sofrimento a que os povos vem sendo submetidos com a exploração dos recursos naturais: a derrubadas da floresta, a mineração e as companhias petroleiras. E suplicaram: “Pedimos-lhe que nos defenda. Os estrangeiros nos veem como fracos e insistem em tirar nosso território de maneiras diferentes. Se eles conseguirem tirar nossas terras, podemos desaparecer”.

María Luzmila Bermeo, do povo Awajún, questionou e pediu: “O que podemos fazer? Que as autoridades ajudem a preservar as florestas, a manter nosso ambiente limpo e respirar ar fresco, como quando eu era pequena. Nós, povos da Amazônia, nos organizamos para defender nosso território”, disse. E por fim, antes de despedir-se na língua Awajún, convocou: “Todas as pessoas em nosso mundo devem respeitar e cuidar da nossa natureza”.

“Obrigado pela vossa presença e por nos ajudardes a ver mais de perto, nos vossos rostos, o reflexo desta terra. Um rosto plural, duma variedade infinita e duma enorme riqueza biológica, cultural e espiritual”

Papa Francisco

Em seu discurso, o papa Francisco disse que desejou muito o encontro. “Obrigado pela vossa presença e por nos ajudardes a ver mais de perto, nos vossos rostos, o reflexo desta terra. Um rosto plural, duma variedade infinita e duma enorme riqueza biológica, cultural e espiritual. Nós, que não habitamos nestas terras, precisamos da vossa sabedoria e dos vossos conhecimentos para podermos penetrar – sem o destruir – no tesouro que encerra esta região, ouvindo ressoar as palavras do Senhor a Moisés: ‘Tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa’ (Ex 3, 5)”.

Francisco louvou a Deus por toda a biodiversidade amazônica. E denunciou as ameaças sofridas pelos povos originários por conta da devastação socioambiental com “a ideologia extrativa, os grandes interesses econômicos cuja avidez se centra no petróleo, gás, madeira, ouro e monoculturas agroindustriais”. O Papa condenou a ameaça contra os territórios dos povos originários que “vem da perversão de certas políticas que promovem a ‘conservação’ da natureza sem ter em conta o ser humano”. Ele frisou também a realidade dos povos indígenas em isolamento voluntário, o tráfico de pessoas, o trabalho escravo, o abuso sexual, a violência contra mulheres e adolescentes.

O Pontífice convocou os povos indígenas: “É bom que agora sejais vós próprios a autodefinir-vos e a mostrar-nos a vossa identidade. Precisamos de vos escutar. Precisamos que os povos indígenas plasmem culturalmente as Igrejas locais amazônicas. Ajudai os vossos bispos, os missionários e as missionárias a fazerem-se um só convosco e assim, dialogando com todos, podeis plasmar uma Igreja com rosto amazónico e uma Igreja com rosto indígena. Com este espírito, convoquei um Sínodo para a Amazónia no ano de 2019”. E na língua quéchua, despediu-se: “Tinkunakama (até o próximo encontro)”.